As verdades de Estamira

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Estamira, de Marcos Prado, conta a história de uma mulher que carrega o título do filme e vive de um dos aterros sanitários do Rio de Janeiro. Paciente de um instituto de saúde mental público, Estamira conta suas verdades no filme, entre alucinações e encontros com familiares e amigos.

Não adianta se perguntar o que surpreende mais neste documentário. A intimidade da equipe de filmagem com a protagonista é tão absurda que nos perguntamos se realmente a câmera está ali. Estamira está sempre à vontade e conversa fartamente. A transição entre as imagens granuladas em preto-e-branco e as atualíssimas limpas coloridas contrastam, não apenas com o choque de ver a miséria em sua versão mais crua, mas com os intervalos dos discursos da protagonista. O granulado nos remete a um espaço, ao lixão, ao tempo que mostra a vida no aterro, mulheres, crianças e homens em busca de comida e outros bens ainda úteis, descartados pela maioria. A cada descarregamento de caminhão mais e mais pessoas se juntam, como em Ilhas das Flores (Jorge Furtado, 1989), ao lado de animais. Um cadáver humano aparece e, como a crueza da vida das pessoas, é só mais lixo jogado fora. Ao isolamento do preto-e-branco, Estamira aparece colorida e falante, numa imagem limpa que nos impregna ainda mais de uma realidade que não estamos acostumados a ver.

Estamira é um personagem, é uma mulher real e que passou por muitas atrocidades em sua vida. Prostituta, casada, separada, estuprada, mãe, avó, filha de mãe doente, abandonada e tão abaixo da linha de pobreza que nem esta se enxerga mais, o que lhe restou foi a dúvida se há excesso de lucidez em sua vida ou a necessidade dela freqüentar outros percursos mentais para suportar o dia-a-dia. A equipe a acompanhou durante dois anos e neste tempo há a estabilidade, os momentos de raiva e a certeza que, além de amar seu trabalho, depois de sua morte será finalmente feliz.

Outra certeza de sua vida é a não existência de Deus. No decorrer do filme, vemos um de seus netos lhe perguntando se Deus existe e ela, aos berros, indica que não, que não é possível existir um deus que permita as atrocidades já cometidas, os assaltos, a violência, a pobreza. E toda a ruindade do mundo não é culpa dele, ela garante, mas do ‘trocadilo’, que é a entidade do mal ou as pessoas ruins que passaram na sua vida para destruí-la de alguma forma. É interessante perceber que o ‘trocadilo’ é sugestivo quando ao significar algo, indica uma outra coisa, sendo dúbio – o trocadilho – e aí, a verdade se dissipa. Não seria essa a brincadeira do termo? Quando Estamira trata destes assuntos sempre se exalta, mas não estaria ela correta em seu arroubo? Não deveríamos também gritar sobre as mazelas, injustiças, ficar com raiva?

Percebemos, entretanto, os delírios desta guerreira. Como numa possessão, passa momentos em outro plano, murmurando delírios em palavras estranhas que não reconhecemos. Vemos seu olhar percorrer o vazio, como se estivesse procurando algo e encontra, mas não vemos nada. Mas aí surge outra surpresa: ao retornar de uma visita ao instituto de doença mental, rejeita os remédios que lhe indicaram, porque reconhece neles seu poder ‘dopante’. Nos informa que não usará os remédios, como o Diazepan que certa vez lhe receitaram e que entregou aos médicos, dizendo para utilizarem em outro paciente que não ela. Estamira não quer se dopar, quer se saturar de vida.

O discurso de Estamira é lógico neste sentido e a coerência de sua língua portuguesa surpreende ainda mais. Estamira erra pouco. O que nós pensamos das condições de sua vida e de seu colega – um senhor que também passa a vida no aterro – nos leva a um tipo específico da sociedade, onde o idioma não se faz culto. Erro. Os dois são limpos em seu linguajar e gosto; uma das cenas mais surpreendentes do filme é quando esse senhor canta. Sua voz é tão bonita e clara que nos perguntamos por que ele não canta durante o filme todo...

Enquanto há o duelo da crítica em falar do filme ao invés de se prender no personagem, percebo que a atração que Estamira personagem provoca é superior às qualidades do filme ou talvez seja essa sua maior qualidade, seu brilho. O filme nos prende e nos faz evitar piscar, para apreender ainda mais da mulher que, apesar de viver na sujeira, tem um sorriso limpo e olhar firme.

Estamira é vomitório de palavras, é a tentativa de se descobrir e melhorar seu espaço. Ela sabe que não consegue, porque seu Deus morreu e o ‘trocadilo’ está aí, escondido pelos cantos escuros do mundo. Sua lucidez é tamanha que nos perguntamos sobre sua ‘loucura’. Estamira me remeteu automaticamente a Clarice Lispector. Estamira, como Clarice em “Um Sopro de Vida” está em sua última chance de descoberta. E Clarice não pára em seu discurso, poucos são os intervalos, os assuntos vão se atropelando e acumulando e cada frase é uma bomba de filosofia e sentimento. É visceral e tenta dar conta do pouco tempo que lhe resta para ser ela mesma, em toda a sua plenitude infinita. E, enquanto vamos lendo e buscamos digerir e tatuar as palavras de Clarice em nossa essência e descobrir-nos a partir de sua descoberta, ela nos manda mais e mais, para não pararmos, para absorvermos o máximo, o excesso, o que vai além de qualquer limite. Assim também é Estamira. Sua força é tão grande que nem ela suporta a velocidade de suas palavras, em seus ápices, nem respira. E não respiramos com ela, queremos ver até onde ela vai, até onde é possível, até quanto ela agüenta? E ela agüenta tudo, ela tenta se agüentar e quando se satisfaz, se cala. E pára. E retorna, como num ciclo, a cada provocação. Estamira é sofrimento, é riso, é dor. Estamira é além, é o símbolo de uma força que muitos desconhecem, que parte da dor constante dos desprivilégios da vida, mas que não desiste, resiste. Estamira é um tapa na cara de nossas queixas, nos faz rever motivos, sentimentos, questões e relações. Como Clarice.
Publicado em outubro de 2007, no Drops de Anis

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. que foda... fácil fácil eu fico deprimido na saída de um filme desse, apesar de Estamira.

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