Abuelos

12:47


Aparentemente, além de mim, há muita gente buscando em suas raízes, temas para filmes. Ou que fazem da busca um próprio filme. Como eu, essa diretora foi em busca de seus avôs, redescobrí-los, reconhecê-los e partir deles para contemplar o todo.
Abuelos conta a história de Reno e Juan, um médico autodidata equatoriano e um ativista político chileno engajado no tempo em que isso custava a vida. Carla Valencia D’Avila é o elo; a neta destes latino-americanos com histórias incomuns e pouca convivência com eles. Mas a pergunta que alguns se fazem é: mas o que eu tenho a ver com isso? Ou: por que me interesso por isso, já que não é minha a história?
Os documentários nasceram pessoais. Os Lumiére ligavam suas câmeras e registravam momentos em família, os filhos pequenos, passeios nos parques. Claro que não só isso, porque foi deles também o trem que apavorou todos no cinema e a clássica saída da fábrica. Mas desde muito cedo se registrava em filme momentos íntimos, familiares, histórias que partem de um interesse e com enfoque pessoal abrangendo muito mais.  Um professor de Cinema já me dizia que para falar sobre o correio, parta da carta.
Não apenas nós, mas Sandra Kogut, João Moreira Salles, Kiko Goiffman buscaram dentro de casa, histórias para nos contar. Esse é um mote comum; sem falar dos cineastas que partem das histórias pessoais de outros para construir seus filmes e aí Eduardo Coutinho por si só me resume todo o parágrafo. As questões aqui são: todas as histórias bem contadas, ainda que pessoais, extrapolam o doméstico e é muito fácil se identificar a partir da história do outro; ainda mais se ela trata de assuntos de família.
Aqui acontece o mesmo. O avô Juan foi um militante em prol do desenvolvimento do Chile, país que tanto amava. O Chile estava no período da ilusão – como vários outros países da América Latina – quando se desenvolvimento social e político prometia uma ascensão econômica, mas seu engajamento o levou a um campo de concentração quando Salvador Allende foi assassinado e a ditadura militar assumiu. Carla, nossa diretora, nunca o conheceu. Sua investida parte de histórias da vida de seu pai e tios, encontrando aquela situação política que ultrapassava fronteiras. E numa dessas, precisamente em Moscou, seu pai conheceu sua mãe, uma equatoriana um tanto diferente. Este seria, portanto, o único meio possível destas duas famílias, tão díspares se unirem.
Carla conheceu Reno e só assim, pudemos perceber que seu avô seria perfeitamente um personagem de Gabriel García Márquez. Repleto de histórias fantásticas – agora reais – esse médico autodidata salvou vidas com curas milagrosas a partir de suas fórmulas de imortalidade em comprimidos. Por mais surpreendente que seja a ponto de parecer ficção, é tudo verdade. E é essa a verdade que transcende o filme; aqui já falamos de curas alternativas, de fé, de política, de ditadura. Onde mais haveria identificação? São temas para todos partindo de um.
O filme é muito feliz em sua construção. Como aconteceu comigo, a própria diretora conta sua história, é sua a voz que ouvimos. Não havia outra maneira, acredito eu, já que a investigação também parte dela. As conexões que ela faz com as duas famílias, mantendo ainda uma separação para que não se confundam equatorianos com chilenos é importante para o espectador e chega num determinado ponto do filme que já estamos íntimos daquela história, mais uma vez, como nos livros de Gabriel García Márquez. Não só isso, há ainda a montagem que segue paralela, numa analogia entre o abundante verde da região amazônica, com suas matas densas e rios caudalosos e a secura do deserto chileno; um mar de areia para ressaltar o vazio daquele que ela não conheceu. Também, a violência de um fim com a suavidade daquele que se dizia imortal.

Conhecendo as famílias por seus nomes e relatos, nos confundimos pouco o quase nada e com o final triste – já que sabemos que os dois estão mortos – relembramos nossa própria trajetória, nossas história e famílias, como se uniram, que laços também mágicos estão presentes e quem são nossos heróis. Carla, contando sua história e buscando um passado, trouxe um pouco de cada país, um pouco de culturas mescladas, tudo de América Latina e também nos fez encontrar nossa própria família, que nos esperava em pensamento, do lado de fora da sala do cinema.

Aqui, o site do filme.
E o trailer.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Eu também tentei criar um filme (no meu caso era ficção mesmo) com a história de meus avós. Passei uns seis meses perguntando um monte de coisas para minha vó para descobrir os contos e casos. Mas depois acabei largando de mão, ainda não estava pronta para contar a história sem fantasiar nos detalhes. Achei que não faria jus a história dela.

    Abuelos parece muito interessante, e a maneira que você descreve Tati, parece ainda melhor! Será que chegará aqui em SSA? BJS!!!

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