Entre Nós

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Filmes de volta no tempo tendem a ser pessimistas, como as ficções científicas ou até as comédias sobre crianças que querem ser adultos. Em Entre Nós somos levados por amigos de classe média alta, felizes e com vinte e poucos anos cheios de ideias e planos para o futuro. É nessa idade que criamos expectativas de carreira, relacionamentos, de vida. O que vem depois raramente chega perto do que se espera, ainda mais quando nossas decisões são graves o suficiente para impedir tantas realizações e alegrias.

O filme conta a história de um grupo de jovens aspirantes a escritores, que se reúne para passar férias numa casa de campo. O ano é 1992 e juntos decidem se escrever cartas e enterra-las para serem abertas depois de dez anos. Nesta viagem, dois deles sofrem um acidente e um morre, deixando um livro pronto enquanto o outro ainda estava escrevendo seu primeiro romance.
O mote usado não incomoda: o sobrevivente assume a autoria do livro que se torna um sucesso. Recentemente vimos outros com a mesma ideia, de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos e As Palavras, com Bradley Cooper no elenco. Quando os amigos se reencontram para abrir as cartas, confrontam anos de um passado cheio de alegrias, mas que começou trágico. Os personagens amadurecidos e um tanto amargos pelo tempo se encaram para uma tarefa agora não tão prazerosa, afinal, cada um sabe o que se prometeu e as ideias de um futuro melhor ficaram apenas no papel. Não apenas isso, é uma década de transição política e econômica para o país. A alusão não é gratuita: os Morelli fizeram questão de pegar o período e enquadrar aí jovens que já estivessem em idade de analisar criticamente tanto suas vidas quanto o contexto.

Há alguns incômodos de roteiro e atuação; espera-se que o personagem de Caio Blat tome atitudes que não se concretizam, ficamos presos em cenas de suspense que se esvaziam com uma trilha sonora que se perde em ênfases gratuitas. Maria Ribeiro também deixa a desejar, como se estivesse sempre esperando seu momento – a impressão que nos passa é que ela não segue fluida, como Carolina Dieckmann. Esta surpreende juntamente com Paulo Vilhena nos dois momentos do filme, particularmente nas cenas de ‘2002’. Rodado quase todo em uma locação, participamos dos jogos de cena e das sequências de suspense e romances frustrados – ainda frágeis, mas boas tentativas – enriquecidas com uma trilha sonora oscilante, que ganha com Caetano Veloso, nostálgico e doce em Na asa do vento.


O drama é um diferencial nesse atual cinema brasileiro. O filme conseguiu sair da comédia escrachada televisiva e dos filmes violentos – mesmo com o carimbo Globo Filmes, o que pode ser uma abertura para novos olhares – vemos uma estrutura narrativa com cara de cinema, brasileiro, bem construído, com uma montagem que sustenta uma trama psicológica em que as ações estão mais concentradas em trocas de olhares, falas e silêncios. Ao mesmo tempo, a fotografia intensifica a tensão em planos fechados nos rostos dos atores, enquanto define o isolamento psicológico de cada personagem diante de uma paisagem explorada em planos abertos. Dirigido por Paulo Morelli – de Cidade dos Homens e Viva Voz – com co-direção de seu filho Pedro, esperamos que a partir deste possamos ver mais filmes ‘grandes’ menos televisivos em salas comerciais, que abordem temas e classes distintas das favelas e estereótipos do restante do país. O cinema brasileiro carrega uma gama considerável de bons filmes, mas por falta de recursos e apoio na distribuição, são vistos em festivais para tentar alcançar público e visibilidade e acabam em poucas semanas de circuito comercial. Com Entre Nós talvez ocorra diferente com o apelo dos atores, uma distribuição pesada e uma produção de qualidade. É esperar o público participar e perceber que podemos fazer filmes diferentes dos gêneros já estabelecidos no país.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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